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Autismo para além da infância: quando o diagnóstico acompanha toda uma vida

Imagem gerada por IA

Mais do que um diagnóstico na infância, o Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento que atravessa diferentes fases da vida e ainda desafia a sociedade a enxergar adolescentes e adultos autistas.

Quando falamos em autismo, é comum que a primeira imagem seja a de uma criança. Mas o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não termina quando a infância acaba. O autismo acompanha a pessoa ao longo da vida, e adolescentes e adultos também precisam ser reconhecidos, compreendidos e incluídos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente 1 em cada 127 pessoas no mundo seja autista, com base em estimativas globais referentes a 2021. Nos Estados Unidos, dados mais recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), divulgados em 2025 e referentes a crianças de 8 anos acompanhadas em 2022, apontaram uma prevalência identificada de aproximadamente 1 em cada 31 crianças.

Os números chamam atenção, mas também precisam ser interpretados com cuidado. O crescimento das identificações não significa, necessariamente, que o autismo esteja simplesmente “aumentando”. A ampliação do conhecimento, a maior atenção dos profissionais, mudanças na identificação e o acesso aos processos diagnósticos também contribuem para que mais pessoas sejam reconhecidas dentro do espectro.


Afinal, o que é o espectro autista?

O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento que pode envolver diferenças na comunicação e na interação social, além de padrões de comportamento, interesses ou atividades restritos e repetitivos.

Mas existe uma palavra fundamental nessa definição: espectro.

Isso significa que não existe um único jeito de ser autista. Há pessoas que apresentam necessidades de suporte mais intensas e outras que possuem maior autonomia em diferentes áreas da vida.

O DSM-5 utiliza três níveis para indicar a necessidade de suporte:

Nível 1 – requer suporte: existem dificuldades que podem interferir na comunicação social, na flexibilidade, na organização e na adaptação a determinadas situações.

Nível 2 – requer suporte substancial: as dificuldades são mais significativas e podem impactar de maneira importante a comunicação, a interação social e a adaptação às mudanças.

Nível 3 – requer suporte muito substancial: a pessoa apresenta necessidades de apoio mais intensas, podendo necessitar de auxílio significativo para comunicação e atividades da vida cotidiana.

É importante destacar: nível de suporte não é sinônimo de inteligência, capacidade ou valor pessoal. Uma classificação não resume quem é aquele indivíduo.


E onde estão os adolescentes e adultos autistas?

Estão nas escolas, universidades, empresas, famílias, relacionamentos e em tantos outros espaços da sociedade.

Alguns foram diagnosticados ainda na infância. Outros chegam à adolescência ou à vida adulta sem sequer saber por que determinadas situações sociais sempre pareceram tão difíceis.

Há pessoas que passam anos desenvolvendo estratégias para se adaptar às expectativas sociais, escondendo dificuldades ou reproduzindo comportamentos observados ao seu redor. Em determinados casos, o diagnóstico só acontece quando as demandas da vida aumentam: ingresso na universidade, primeiro emprego, relacionamentos, responsabilidades financeiras, independência e necessidade de organizar uma rotina mais complexa.

E, para algumas pessoas, receber um diagnóstico na vida adulta pode representar não apenas uma descoberta, mas também uma oportunidade de recontar a própria história com mais compreensão e menos culpa.


O autismo também envelhece

Outro ponto que ainda recebe pouca atenção é o envelhecimento da população autista.

Se uma pessoa é autista na infância, ela continuará sendo autista na adolescência, na vida adulta e na velhice. Por isso, discutir políticas públicas, saúde, educação, trabalho e inclusão significa também pensar no autismo ao longo de todo o ciclo de vida.

Não basta falar sobre intervenção precoce, embora ela seja extremamente importante. Também precisamos falar sobre qualidade de vida, autonomia, empregabilidade, relações sociais, envelhecimento e suporte às famílias.


Mais informação, menos estereótipos

Talvez um dos maiores desafios seja abandonar a ideia de que existe uma “aparência” do autismo.

Nem toda pessoa autista apresenta as mesmas características. Nem todo autista possui deficiência intelectual. Nem todo autista não fala. Nem todo autista apresenta comportamentos facilmente identificáveis.

E justamente por isso, informação de qualidade é tão importante.

Quando reduzimos o autismo a estereótipos, corremos o risco de não reconhecer pessoas que precisam de apoio. Quando ampliamos o olhar, conseguimos compreender que cada pessoa possui uma trajetória, potencialidades e necessidades diferentes.

O diagnóstico não deve servir para limitar expectativas. Deve servir para ampliar possibilidades de compreensão, acesso a direitos e construção de estratégias que favoreçam a autonomia e a participação social.


Olhar para a pessoa antes do diagnóstico

Talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente: “Qual é o nível de autismo?”

Mas sim:

“Quais são as necessidades dessa pessoa e quais apoios podemos oferecer para que ela tenha uma vida com dignidade, participação e autonomia?”

Porque falar sobre autismo é falar sobre infância, mas também sobre adolescência. É falar sobre adultos que estudam, trabalham, constituem famílias e constroem projetos de vida. É falar também sobre pessoas que envelhecem.

O espectro é amplo.

As histórias são diferentes.

E, antes de qualquer classificação, existe uma pessoa.

Que possamos substituir o olhar que procura apenas o diagnóstico por um olhar que enxergue possibilidades, necessidades e, principalmente, humanidade.


Suellen Romão
Psicóloga
Conteúdo sobre saúde mental, comportamento, desenvolvimento humano e temas contemporâneos